
E agora existe, dizem as lendas, o Dia do Orgulho Nerd.
Há alguns anos, parece que seria impossível que existisse uma data do tipo a ser comemorada porque, antigamente, não era legal ser nerd. Ou, ao menos, dizer que era um nerd. E, embora o calendário de eventos de alguma cidade brasileira ainda esteja nos devendo uma Parada do Orgulho Nerd, com milhares de caras branquelos e de ôculos andando lado a lado, fantasiados como Batman ou Coringa e discutindo o último episódio de Big Bang Theory, ninguém parece ter muitos problemas hoje em dia para bater no peito e dizer: “É, eu sou nerd!”
Mesmo quando o sujeito não é...
Por que, pelo visto, dizer que é nerd virou moda. Após todos os anos em que era vergonhoso levar por aí o apelido de nerd, hoje é legal. É cool. Finalmente a humanidade percebeu – embora seja relutante em admitir abertamente – que são os nerds que dominam o mundo, os nerds que estão nas posições de poder, os nerds que criam as evoluções tecnológicas, os nerds que dominam a economia, os nerds que estão por trás dos filmes mais legais e de mais sucesso, dos programas de TV mais assistidos e dos livros que mais vendem.
Mas vamos deixar claro: um monte desses caras que estão por aí dizendo que são nerds, não são. Apenas acham que são. Ou queriam ser.

Confusão de Indentidade
Não é só porque você lê um gibi do Homem-Aranha, que é mesmo um nerd. Não é só porque assistiu dez vezes a cada filme de O Senhor dos Anéis e acha todos fantásticos. Não é porque foi ver Avatar no dia da estreia. Não é porque nunca perdeu um episódio de Lost ou de Fringe, que você é um verdadeiro, autêntico e dedicado nerd.

Gostar ou se interessar por essas coisas é fácil. Elas são legais e estão por aí à vista de todo mundo. Seus produtores ou editores gastam milhões e milhões de dólares em publicidade para que você saiba que essas coisas existem. São produtos criados para que você se interesse muito por eles e ache que não pode viver sem. Foram feitos para agradar as massas. E, se você gosta de todos eles, quer dizer apenas que você é massificado. Não que é um nerd de carteirinha genuíno.
Porque um nerd verdadeiro é o sujeito que vai além de tudo isso. Ele não se interessa apenas pelos últimos filmes, gibis e seriados lançados. Ele é um cara que se interessa por coisas que existiram muito antes de seu tempo. Ele quer saber porque Drácula é um livro tão falado e vai atrás de uma cópia pra ler. Quer saber se aquele tal de Casablanca – um filme romântico dos anos 40 - é bom mesmo, já que tantos filmes e desenhos animados fazem referência a ele. Lê sobre Além da Imaginação e como essa série influenciou tanto a TV e o Cinema, e vai conferir aqueles velhos episódios em preto e branco para descobrir por si próprio se a série era mesmo tão especial.


Um nerd tarja preta não se limita a gêneros. Ele não gosta apenas de filmes que têm alienígenas, robôs, fantasmas, monstros ou super-heróis. Ele pode até gostar mais de filmes desse tipo, mas também se interessa por filmes policiais, por comédias e até por dramas históricos. Um nerd assiste o filme do Thor e vai atrás de mais informações, quer saber o que mais o diretor ou o roteirista fizeram antes. E será que esse tal de Henrique V, do Kenneth Branagh, não vale a pena assistir?

Um nerd de verdade sabe quem é Robert E. Howard, H.P. Lovecraft, Douglas Adams. Já ao menos ouviu falar em Carnacki, em Cthulhu, em Salem’s Lot. Sabe o que é um Babel Fish. Sabe que Arkham não é só um manicômio nas histórias do Batman. Sabe porque aquele "instant messenger" pouco popular se chama Trillian. Sabe o que é um romulano. Sabe de onde saiu a frase "Beijarei seus lábios, talvez haja neles um resto de veneno." Sabe porque havia algo de podre no reino da Dinamarca e porque fantasmas estavam envolvidos na história. Por que, veja, um nerd tem que ler. Ler muito. Ler tudo. Ler revistas. Ler quadrinhos. Ler livros. Ler livros sobre livros. Ler sobre cinema, sobre TV, sobre música, sobre política, sobre o futuro, sobre o passado, sobre pessoas interessantes, sobre mundos impossíveis e mundos, infelizmente, mais do que possíveis.
Um nerd sabe quem é Emma Peel. Quem é Simon Templar. Quem são Shazam e Xerife. Quem são Ênio e Beto. Quem é Ian Fleming. Quem é Victor Fleming. Quem é Scarlett O’Hara. Quem é Rick Blaine. Quem é o Dr. Frank-N-Furter. Quem é George Romero. Quem é George Costanza. Quem é Georges Remi. Quem é Uderzo. Quem são o Inspetor Carlos e Lobo. Quem são Sam Becket e Al Calavicci. O que é uma TARDIS. Quem é Dan Moroboshi e por que ele foi crucificado. Quem é Felix Leiter e pra quem ele trabalha. Quem é o astronauta George Taylor e porque ele se arrependeu por ter dormido demais. Quem mora no 221B da Rua Baker. Quem disse "Klaatu Barada Nikto". Quem é Natalie Kalmus e porque, antes dela, o cinema não era tão legal quanto é hoje.



E, se não sabe, vai atrás pra descobrir.
Mais e Melhores Nerds
Um nerd se interessa. Por tudo.

Ser nerd é ter um caso de amor verdadeiro com a cultura pop e a maioria de suas vertentes. É ter ciência de que pouca coisa – pouquíssima na verdade – é mais importante para sua vida do que o cinema, os livros, os quadrinhos, os seriados de televisão, o teatro, a música e até os vídeo games. E não ter vergonha disso.
Ser nerd é gostar de algo e tentar descobrir como aquilo veio a existir, os detalhes de sua criação, o que poderia ter dado errado e como seria o mundo se não existisse. Mais ainda, é saber que, mesmo frente a algum grande problema pessoal, um bom filme, livro ou gibi com certeza pode ajudar a animar seu dia ou colocar as coisas em perspectiva e renovar sua força de vontade.
O mais importante, na verdade, é ser um nerd para você e por você, não para os outros. Porque o nerd verdadeiro não quer adquirir conhecimentos para mostrar que sabe. Ele quer conhecimento porque simplesmente vai ter prazer em saber isso ou aquilo. Egoistamente, até, mas sempre pronto a compartilhar a informação quando necessário.
Então, se você diz que é um nerd, seja MESMO! Saia desse universo do lugar-comum e vá atrás de mais conhecimento sobre essas coisas que gosta. Pare de achar que o cinema foi inventado nos anos 90, que não tem nada a aprender em livros do século 19 e que peças de teatro são sacais. Vá descobrir que diabo de “Dia da Toalha” é esse de que todos falam e porque isso surgiu numa fantástica novela de rádio – e não nos livros, como a grande maioria pensa.



Viva realmente no mundo da imaginação, no espaço sem limites. Viva a vida fantástica. A vida da literatura, das histórias, da fantasia.
Como diz Alan Moore ao final de The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier, nas palavras de Próspero, um personagem que representa o mundo da fantasia e da imaginação:
"Intangíveis, somos a alma secreta da vida, sua lanterna guia, o seu melhor. Intocada por todos os subterfúgios ou espiões, livre das autoridades mundanas. As certezas da vida se vão, mas ainda assim permanecemos. Enquanto tiranos caem, Quixote ainda cavalga com os companheiros de suas noites de berço em gloriosas pastagens às quais Coleridge nunca sequer viu."

Nerds Verdadeiros, uni-vos.
Para todos os outros, a saída vergonhosa é pelos fundos.
(Prestou atenção nas imagens acima, todas ligadas ao mundo nerd? Reconheceu algumas ou todas? Prove que você é um bom nerd, comentando abaixo sobre as que reconheceu)
Maurício Muiniz é editor da Gal Editora e do blog sobre Cultura Pop Antigravidade.