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As histórias em quadrinhos e o preconceito

por Maurício Muniz | 11/04/2011 |

Entre as décadas de 50 e 80 – época em que os quadrinhos eram ainda muito populares -, se você fosse pego lendo um livro às escondidas no meio de uma aula, provavelmente levaria uma bronca da professora. Mas, se fosse pego lendo uma história em quadrinhos, havia grandes chances de que, além da bronca, a revista fosse tomada de você e até rasgada e jogada no lixo na frente de todo o resto da sala. Até há alguns anos, a escola, definitivamente, não era lugar seguro para um gibi.

Em casa, também não era muito diferente. Uma das "histórias de terror" mais comuns entre leitores de quadrinhos do passado era a do garoto que chegava em casa após a escola e descobria que, numa faxina geral do seu quarto, a mãe jogara fora toda a sua coleção de "revistinhas". Obviamente, para essas mães, aquelas pilhas de papel colorido não tinham valor algum e só tomavam espaço desnecessário no quarto do filho. Na verdade, como muitas delas haviam passado uma infância sem muitos luxos, elas provavelmente não conseguiam entender qual seria a razão para gastar dinheiro com historinhas do Superman (que, um dia, já foi Super-Homem no Brasil), Hulk ou Turma da Mônica. Como perguntava a mãe de um amigo: "Pra que ficar gastando dinheiro com papel?".

Se você nasceu depois de 1990 (ou até depois de 1980), essas histórias podem parecer exageradas, afinal não poderia haver tanto preconceito assim contras as histórias em quadrinhos, certo?
Antes fosse apenas um exagero.

A sedução do blá-blá-blá
Poderíamos até pensar que a culpa do preconceito contra os quadrinhos no Brasil é do famigerado Dr. Fredric Wertham, que iniciou uma das maiores campanhas antigibis da História. Como se sabe, toda moda iniciada nos Estados Unidos logo chega ao Brasil, seja ela boa ou ruim. Mas a visão do Dr. Wertham era de que quadrinhos eram uma coisa perigosa e que influenciava as crianças a tornarem-se delinquentes, enquanto no Brasil a ideia mais aceita parecia ser a de que as HQs, basicamente, eram algo apreciado apenas por alguns inúteis ou, pior, idiotas e aculturados.

Mas, entre a criançada, quadrinhos eram um assunto importante e que merecia horas e horas de conversas. Em meio a questões sérias como "Quem é mais forte, o Super-Homem ou o Hulk?" ou a constatação chocante de que "Puta merda, o Duende Verde matou a Gwen Stacy", os quadrinhos ajudaram a moldar a imaginação de várias gerações e, mais importante, incentivavam as crianças a ler.

Claro, a maioria dos professores e pais não parecia ver grande valor naquilo. Para eles, ler histórias em quadrinhos era um desperdício de tempo e de neurônios. Motivo para broncas, visitas à diretoria ou – se alguém desconfiasse que alguns daqueles quadrinhos de terror em preto e branco, com nomes estranhos como Krypta, tivesse alguma imagem de mulheres nuas – uma boa surra.

Parece estranho hoje em dia, quando é tão difícil fazer a maioria das crianças se interessar pela leitura, que naquela época as crianças iam atrás dos quadrinhos avidamente e por conta própria, enfrentando sol, chuva ou invasões alienígenas para conseguir a mais recente aventura do Batman, Homem-Aranha ou do Mickey. E, invés de adotarem a estratégia de incentivar as crianças a ler cada vez mais e mais quadrinhos para que pudessem desenvolver o gosto pela leitura e, um dia, fazerem a transição natural para os livros – socialmente mais aceitáveis, pelo visto – as instituições jogavam sobre nossos colos coletivos obras clássicas como O Guarani, A Moreninha ou Iracema. Todas insuportavelmente chatas...

Coisas que você aprende nos quadrinhos
Antes que alguém venha com paus e pedras para jogar neste site (ou neste articulista), deixe-me explicar: é claro que O Guarani, A Moreninha e Iracema são ótimos livros e grandes obras da literatura brasileira e mundial. Mas não quando você tem doze ou catorze anos. Nessa idade, eles são um porre sem tamanho, com dramas e cenas românticas que não têm o menor interesse pra garotada.

Ninguém parecia entender que, naquela idade, não queríamos conhecer Dom Casmurro, mas, sim, Don Diego de La Vega. Que não queríamos ler As Memórias de um Sargento de Milícias, porque as memórias do Sargento Tainha, no Recruta Zero, eram bem mais engraçadas. Que visitar o interior do Cortiço nunca seria tão legal quanto passear pela Fortaleza da Solidão ou a Caixa-Forte do Tio Patinhas.

Então, depois de dar livros chatos pras crianças lerem, depois de rasgar seus gibis ou os jogarem no lixo, hoje a sociedade vem reclamar que a molecada não gosta de ler?! Bem, foram vocês que pediram por isso, não?

Pais, professores, educadores e outros poderiam ter interrompido seus ataques aos quadrinhos e nos perguntado porque gostávamos tanto daquelas revistas de páginas coloridas e o que aprendíamos com elas. Aí, teríamos chance de explicar que, daquelas aventuras aparentemente bobas e descompromissadas, tiramos lições, informações e conhecimentos que levaríamos para a vida toda.

  • Com o Homem-Aranha, aprendemos que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.
  • Com o Capitão América, que a Segunda Guerra Mundial durou de 1939 a 1945 e que Hitler não era um cara legal.
  • Com o Quarteto Fantástico, quem foi o pirata Barba Negra e que amianto é resistente ao fogo.
  • Com Thor, que a humildade é importante, que o nome do inferno na mitologia grega é "Hades" e que, segundo a mitologia nórdica, Loki era o deus da trapaça e Odin era o pai dos deuses.
  • Com os X-Men, que o preconceito contra outra raça é errado.
  • Com V de Vingança, que as pessoas que defendem o envio de homossexuais para campos de concentração é que deveriam ser presas.
  • Com o Príncipe Valente, que a vida na idade média não era fácil.
  • Com o Tio Patinhas, Donald e seus sobrinhos, o que era o Velocínio de Ouro, o que eram as hárpias e muitos outras curiosidades e lendas em suas viagens pelo mundo atrás de tesouros.
  • Com o Super-Homem, que a distância entre a Terra e a Lua é de 384.500 quilômetros.
  • Com Batman: O Cavaleiro das Trevas, o que aconteceria se um míssel nuclear fosse detonado.
  • Com o Lanterna Verde e o Arqueiro Verde, que os Estados Unidos – e o mundo – tinham um monte de problemas sociais, incluindo o das drogas entre adolescentes.
  • Com os quadrinhos em geral, aprendemos várias palavras novas e expandimos muito nosso vocabulário, além de absorver termos básicos em inglês, francês, alemão, russo, japonês e um monte de outras línguas. E também viajamos pelo mundo, conhecendo vários países e cidades e um pouco de suas tradições e seus povos.

De que outra fonte melhor e mais interessante, durante a infância e a adolescência, tiraríamos essas informações?! Ah, claro, tudo isso estava nos livros e enciclopédias, mas era muito mais divertido aprender essas coisas entre uma batalha e outra de algum herói que tentava salvar o mundo.

Ou seja, para todos aqueles que eram ou ainda são contra as histórias em quadrinhos, para todos que acham ridículo ver uma criança ou um adulto com um gibi nas mãos, fica a constatação óbvia de que desperdício de tempo e de neurônios é NÃO ler quadrinhos.

Como diria um certo velhinho bonachão:

- Excelsior!

(Aproveite o espaço abaixo e compartilhe conosco suas "histórias de terror" ligadas aos quadrinhos ou nos conte algo que aprendeu lendo um gibi.)

Maurício Muiniz é editor da Gal Editora e do blog sobre Cultura Pop Antigravidade.



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